quarta-feira, 14 de outubro de 2009

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CAMPANHA CONTRA O ABANDONO DE ANIMAIS‏



Muito boa! Campanha contra o abandono de animais...

criativos e verdadeiros os cartazes, é bem assim que falam os donos, as desculpas mais esfarrapadas possíveis!
























Maus-tratos é crime e está previsto na lei de crimes ambientais, número 9605/98.
A pena pode variar de três meses a um ano. A punição pode ser aumentada de 1/6 a 1/3 em caso da morte do animal..Art. 14 - Todo animal, ao ser conduzido em vias e logradouros públicos, deverá usar obrigatoriamente coleira e guia adequada ao seu porte, bem como exibir plaqueta de identificação devidamente posicionada na coleira, devendo ser conduzido por pessoas com idade e força suficientes para controlar seus movimentos.
(Lei Complementar n.º 533 de 10 de maio de 2005)
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De acordo com a Lei 14.483, cães e gatos precisam estar castrados antes de doação ou venda. Se você apanha um cachorro faminto e o alimenta, ele não o morderá; esta é a principal diferença entre um cachorro e um homem.
(Mark Twain)

terça-feira, 13 de outubro de 2009


Matéria excelente de Rafaella Chuahy

O tema deste número é "liberdade" em suas mais diversas nuances.
Sua autora, Rafaella Chuahy, escreveu o livro Manifesto pelos Direitos dos Animais, 2009, ed. Record
Aproveito para reforçar aqui a idéia cada vez mais nítida, para mim, de que a indiferença ao sofrimento animal é, além de cruel, reacionária, conformista, covarde e hipócrita. Tácita aceitação de mais uma tirania vergonhosa como todas as outras.
*
Não se pensa na liberdade e nos direitos dos animais porque
isso desafia o nosso conforto social, colocando em dúvida
certos princípios que há séculos se tornaram cotidianos na
tradição ocidental. Descartes, no século XVII, através da tese mecanicista,
já justificava experimentos com animais, excluindo-os de
qualquer consideração moral e propagando a aceitação do seu uso
como propriedade. Criou-se, então, um sistema judiciário e cultural
que fortalece essa percepção, colocando o homem como centro do
mundo e dominador de tudo aquilo que está a seu redor.

Hoje, é essa a mentalidade de uma indústria que extermina 50
bilhões de animais por ano, usando-os como entretenimento,
comida, roupa etc. As modernas fazendas-fábricas, que substituíram
fazendas de porte pequeno nos anos 1970, cometem torturas
indescritíveis. O foie gras, por exemplo, já produzido no Brasil,
resulta da alimentação forçada de patos e gansos. Os animais
ficam confinados em gaiolas pequenas e são forçados a comer
através de um tubo colocado diretamente na sua garganta e conectado
a um sistema de pressão que empurra a comida com objetivo
de engordar seu fígado. A pressão é tão forte que, às vezes, chega
a romper seus órgãos internos, causando tanta dor que os impede
de ficar em pé.

A mídia costuma retratar os defensores dos animais como pessoas
radicais, excessivamente emotivas, pouco práticas e modistas. No
entanto, o movimento pelos direitos dos animais tem raízes solidificadas
tanto na emoção e na compaixão como na razão e na lógica. É
importante mostrar que a causa animal é munida de princípios que
definem o que é ser humano e o nosso lugar na natureza. Assim,
venho abordar uma questão fundamental: por que os animais têm
direito à liberdade?

Para responder a essa pergunta, primeiro defino liberdade como
a ausência de submissão, de servidão e de determinação, devendo
ser aplicada a todos os seres sencientes (capazes de sofrer). Dessa
forma, aqueles que têm capacidade física ou psíquica de sofrer
devem ser incluídos na esfera moral, tradicionalmente reduzida aos
seres humanos. Também devem ter resguardados os direitos inatos
ao seu bem-estar, sua liberdade física e seu interesse pela vida.

A segunda tarefa, então, é provar a capacidade dos animais de
sentir dor. Hoje, mediante vários estudos, já se pode provar que animais
vertebrados sentem dor. O mecanismo utilizado em animais
para detectar a dor é parecido com o nosso, assim como a parte do
cérebro que processa o sentimento de dor e o comportamento do
animal ao sentir desconforto. Cientistas também concordam que
sentir dor faz parte do processo de evolução biológica, nos protegendo
contra perigos e ajudando em nossa sobrevivência. Outros
estudos também medem a dor emocional do animal. Pesquisadores
concordam que pelo menos cachorros, gatos, pássaros e macacos
entram em depressão, sentem ansiedade e apresentam comportamentos
similares ao humano como anorexia e falta de motivação.

Há os que discordam que a dor seja razão suficiente para lhes
dar certos direitos e argumentam a falta de inteligência ou consciência
do animal. Donos de animais de estimação há muito tempo
já perceberam a ingenuidade de seus companheiros, mas hoje há
evidências de que muitos animais raciocinam, em diferentes níveis.
Donald Griffin, o grande pioneiro no campo da etologia cognitiva,
afirma que mesmo os animais considerados mais primitivos podem
ter consciência. Há mais de 30 anos, o biólogo relata a capacidade
de certos animais de se adaptarem a desafios novos, apresentarem
versatilidade em suas reações, aproveitarem experiências passadas
e se comunicarem. Tudo isso constata uma consciência evidente.
Afirma também que atualmente não há nenhuma prova mostrando
algo único no cérebro humano responsável por sua consciência.

De qualquer maneira, a inteligência não é pré-requisito para
a liberdade. O filósofo Peter Singer argumenta que um bebê ou
um deficiente mental não apresentam uma grande inteligência
ou métodos de comunicação elaborados, entretanto existem leis
que os protegem. Por que então é moralmente correto submeter
macacos a testes de laboratório e não um deficiente mental, cujo
nível de inteligência é o mesmo? Nós sabemos que crianças e deficientes,
por serem mais vulneráveis, devem ser protegidos por leis
estritas. No entanto, em vez de reforçarmos também as leis contra
o abuso aos animais, fazemos exatamente o contrário, privando-os
de qualquer defesa. Singer compara o tratamento dos animais
ao racismo europeu na época dos escravos. Os europeus não
se importavam com a dor que os escravos negros sentiam, pois
o interesse da raça branca sempre prevalecia. Hoje, procedemos
da mesma forma com relação aos animais. Em vez de racismo,
praticamos o “especismo”.
Outro argumento usado para o uso e abuso do animal é o
seu benefício no campo das pesquisas. Calcula-se que hoje morram
entre 70 e 100 milhões de animais em laboratórios. Cães,
gatos, macacos, ratos, coelhos e vários outros são utilizados em
experiências nas áreas da genética e da estética, descobertas de
novos remédios, tratamentos, vacinas e em universidades. O teste
Draize, por exemplo, utilizado pela indústria de cosméticos e de
limpeza, consiste em colocar uma solução ou substância sólida
do cosmético que está sendo testado, em forma concentrada,
nos olhos ou na pele de coelhos. Quando as substâncias químicas
são injetadas em seus olhos, os coelhos pulam, choram e se
contorcem de dor. Para evitar que esfreguem os olhos e retirem a
substância, eles são presos em compartimentos onde não podem
se mexer – exceto a cabeça, única parte do corpo visível. Às vezes
é necessário até o uso de clipes de metal para que as pálpebras
sejam forçadas a ficarem permanentemente abertas. Nos dias que
se sucedem ao teste, observa-se então as reações causadas, com a
finalidade de vender um produto de qualidade. O sofrimento do
animal é absolutamente irrelevante.

Além da indústria da beleza, os animais servem de cobaia em
vários outros tipos de experimentos. São utilizados na área de
psicologia para testes de comportamento e de aprendizagem.
É comum provocar medo no animal e deixá-lo estressado para estudar
sua reação. Colocá-lo isolado para estudar mudanças em seu
comportamento ou usar choques elétricos como método de aprendizagem.
Eles também são usados em testes para medir a radiação
de armas químicas e biológicas. Na área de aprendizado, são submetidos
a cirurgias e outras experiências.

Atualmente, existem divergências entre os grupos de proteção
do animal em relação ao uso de animais em laboratórios. Alguns
defendem a completa eliminação da prática. Outros, entretanto,
aprovam a sua atuação em testes específicos para vacinas, mas não
em testes para cosméticos ou para comportamento. De qualquer
maneira, há uma unanimidade no que diz respeito à inadequação
do seu uso excessivo.

Vários testes alternativos já foram criados e aperfeiçoados.
Testes in vitro (realizados em tecidos e células vivas), utilização de
vegetais, simulações em computador, modelos matemáticos, estudos
feitos em voluntários humanos, técnicas físico-químicas (como
a tomografia), estudos microbiológicos e estudos em cadáveres.
mas o maior problema não é a falta de tecnologia, e sim de incentivo
econômico para as companhias farmacêuticas e químicas utilizarem
outros testes ou procurarem novas alternativas. Os animais
continuam sendo as principais cobaias, pois esse tipo de pesquisa
é a mais fácil e a mais barata. Quando falamos sobre a vivisseção,
a pergunta certa não é: “Quanto as pesquisas com animais beneficiam
a maioria da sociedade?”; e sim: “Quanto as pesquisas
importantes, e que só podem ser feitas em animais, beneficiam a
maioria da sociedade?”.

Finalmente, as grandes propagadoras da escravidão animal
são as agroindústrias. Desde o fim da Segunda Guerra mundial,
principalmente em países ricos, houve uma dramática transformação
no setor agropecuário, devido a novas tecnologias, prosperidade
e aumento do consumo de alimentos. Nos anos 1970, houve
um considerável crescimento na área de fast-food. Grandes com
panhias, como o mcDonald’s, com o objetivo de baixarem o custo,
começaram a comprar carne de alguns poucos grandes fornecedores,
em vez de vários pequenos fazendeiros. Assim, as fazendas de
porte pequeno faliram e outras se agruparam, tornando-se grandes
fábricas. Hoje, apenas algumas enormes fazendas modernas, já
estruturadas como agroindústrias onde são criados principalmente
porcos, galinhas e vacas, fornecem a maioria da carne e laticínios
vendidos em países industrializados.

O objetivo das fazendas-fábricas é produzir a maior quantidade
de carne, leite e ovos da forma mais rápida e barata possível.
Funcionam como uma fábrica de carros, onde quase tudo é auto-
matizado para baixar o custo da mão de obra. Os animais são
confinados, marcados com ferro em brasa, presos com cordas
para ficarem imóveis, castrados sem nenhuma anestesia, eletrocutados,
mutilados e forçados a tomar hormônios e outras
substâncias que lhes causam desconforto. Eles sofrem constante
dor, ansiedade, medo, desespero, revolta e até canibalismo.
O pesadelo começa nas fazendas e segue até os matadouros ou
abatedouros. Para diminuir os custos, os fazendeiros colocam o
maior número possível de animais em caminhões para transporte.
Apertados nesses caminhões, eles passam horas sobre excrementos,
sem comida, luz, ar ou água.

Por causa do grande número de animais confinados em pequenos
espaços, da imundície do lugar e, consequentemente, da alta
probabilidade de doenças, os fazendeiros usam grandes quantidades
de pesticidas e antibióticos nos animais – essas substâncias permanecem
no corpo dos animais e são transmitidas para as pessoas
que ingerem sua carne, gerando problemas de saúde e baixa defesa
imunológica. A Organização mundial de Saúde e a Associação
Americana de medicina já publicaram relatórios apoiando o fim da
prática de dar antibióticos aos animais.

Para entendermos melhor até que ponto chega a ganância da
indústria, é só olhar para o tratamento dado aos empregados das
fazendas e matadouros. Assim como os animais, eles são tratados
como unidades econômicas e meras fontes de renda, recebendo

baixíssimos salários e sob risco constante de acidentes. Nos Estados
Unidos, o número de acidentes envolvendo trabalhadores de abatedouros
é três vezes maior do que numa fábrica americana comum.
Além disso, os empregados trabalham entre 50 e 60 horas por
semana em lugares fechados, sendo diariamente expostos a produtos
químicos com alta periculosidade: pesticidas e amônia, além de
bactérias, fungos e gases vindos das fezes dos animais, sulfato de
hidrogênio, doenças e animais mortos.

A obsessão pelo ganho financeiro leva à desvalorização da
vida – seja ela humana ou não. É importante não só respeitar
os direitos dos animais, mas mudar as ações humanas, baseadas
unicamente em lucro rápido. É necessário uma avaliação de nossa
estrutura ética, moral e cultural. Dar liberdade e certos direitos aos
animais nos capacita a mudar nossas atitudes diante dos outros,
humanos ou não. Ensinar uma criança a não jogar pedra numa
pomba, respeitando-a, faz com que ela cresça sabendo que não
temos o direito de sacrificar outros seres vivos para satisfazer
nossos desejos, prazeres, luxo ou conveniência. Uma criança que
aprende a respeitar e valorizar a vida de um animal crescerá com
um maior entendimento sobre o valor da vida, seja ela qual for.

Qualquer teoria moral defende a noção do “princípio de igualdade
de consideração” (regra segundo a qual devemos tratar de modo
igual os casos semelhantes). A libertação do animais é oportuna e
a justificativa de abuso ao animal, baseada em sua falta de inteligência
ou pouca inteligência, não tem o menor fundamento. Sua
sensibilidade, inteligência e capacidade emocional, ou mesmo apenas
a sua capacidade de sofrer, já são suficientes para exigirmos
que eles sejam tratados com dignidade e que a eles seja dada a
liberdade que merecem.

*
“A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e pode-se afirmar seguramente que, quem é cruel com os animais, não pode ser um bom homem.”
(Arthur Schopenhauer)

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Rafaella Chuahy é autora do livro Manifesto pelos Direitos dos Animais, 2009, Editora Record, 252 páginas